O amor e suas dores

Hoje vou falar um pouco sobre um evento que participei no ILPC , o Pensar Psicanálise, que teve como tema “o amor e suas dores”. O palestrante foi o psicanalista Oliver Liger. A ideia era falar sobre o “amor romântico”, entre casais, onde um espera e acredita que o outro o completa.  Vou tentar descrever um pouco do que ele falou por lá.

Segundo o palestrante, todo amor implica em dor. Para Lacan, o amor é da linha do real, do intraduzível, do que não se pode descrever.

O amor é o nome que damos a um afeto e só amamos na falta. Segundo Liger, o amor é uma promessa que nunca se realiza, pois nunca estamos satisfeitos, sempre queremos mais. Estamos constantemente em busca de preencher uma falta que temos e que nunca será encontrada no outro, é algo nosso. E todos os nossos desejos circulam em torno desta falta.

Passamos por três tipos de falta logo no início das nossas vidas e o resto dela procurando alguém para preenchê-las. A primeira falta ocorre quando percebemos, ainda bebê, que a nossa mãe não é uma extensão nossa, que ela é algo separado e a sua privação é como uma ameaça à nossa existência. Sentimos que podemos morrer sem tê-la por perto, ficamos desamparados, desesperados. A segunda falta inclui a privação da mãe (ou cuidador), pois mesmo sabendo que ela vai e volta, no espaço de tempo em que estamos sozinhos sentimos a angústia voltar. A terceira falta vem do amor aos pais, o amor incestuoso que não pode ser correspondido.

E assim, com essas faltas, passamos a desejar sempre mais. Somos seres “desejantes” e “faltantes”. É preciso desejar para se manter vivo. O desejo pode até se realizar mas nunca é satisfeito, pois se este desejo fosse completamente satisfeito não desejaríamos mais e não teríamos mais sentido na vida. Nós nos desenvolvemos com a falta e o amor é o regulador deste “vazio”.  Segundo Lacan, amar é dar o que não se tem a quem não quer .

Nós escolhemos alguém imaginando que tenha algo que poderá nos completar para preencher esse vazio. O problema é que os dois têm faltas e não há como preencher a falta que é do outro. Toda relação começa com projeções. Quando conhecemos alguém criamos uma história para que possamos projetar no outro algo para que possamos querer mais. O corpo do outro é um espaço para que possamos criar a nossa história para tentar tampar o nosso vazio. Segundo ele, não vivemos com o outro, mas com aquilo que ele representa dentro de nós.

O amor envolve negociação, aceitar defeitos, a sua própria falta e, principalmente não usar o outro para tamponar esta fata. O grande erro do amor é querer transformar 1+1 em 1 (quando bebês achávamos que nós e nossa mãe éramos um só); depois percebemos que 1+1=2 (mãe que vai e volta), e tudo isso leva a dor e frustração. É como se quiséssemos fazer uma remontagem da nossa vivência com nossa mãe, querendo voltar ao início onde éramos o centro de tudo.

Sempre queremos mais do outro e isso nunca tem fim, nunca se equilibra, e então nos frustramos e nos decepcionamos.  O amor é o que nos move e é necessário, mas se faz em nível de promessa. Amor é ficção, promessa que nunca é cumprida.

O amor está ligado sempre à construção imaginária que criamos do outro e depositamos as nossas pulsões em seu corpo. Com a saída do outro de perto há a destruição da imagem que criamos dele dentro de nós. As pulsões não tendo onde ser depositadas promovem a dor do amor. O que falta no amante é o que o outro não tem. Essa insatisfação é necessária para nos movimentr ao longo da vida. Vivemos com o outro porque ele não dá o que queremos. O outro é regulador da nossa insatisfação, portanto, do nosso desejo. É preciso deixar o outro insatisfeito para alimentar o desejo.

Quando há rompimento de relações o investimento vai todo para o objeto perdido (superinvestimento). É como se nos esvaziássemos. Como a presença física não existe mais. tentamos manter o outro no pensamento. O outo é construído segundo a nossa história, de modo a preencher o nosso vazio.

Quando perdemos dói, e então queremos de qualquer forma trazer o outro de volta. Num segundo momento a dor que sentimos é a dor da percepção da nossa própria falta. O amor é um regulador da dor de existir e quando o perdemos, retornamos a esta dor. Hoje ninguém quer entrar em contato com sua falta, já que o lema é a felicidade imediata. O que se perde ao perder um amado? Perde-se algo que não foi. O que sempre predomina é a fantasia que criamos do outro.

Só conseguiremos conviver e amar verdadeiramente o outro quando aceitarmos a nossa própria falta, a nossa própria dor de existir, sem esperar que o outro faça por nós o que só nós somos capazes de fazer.

O evento foi muito interessante e tem muita coisa pra pensar e analisar. Será que em nossas relações estamos idealizando o outro para que ele caiba perfeitamente no vazio que temos em nós?

Uma ótima semana de realidade para todos nós.

 

Meditação

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