Freud era um gênio. Descobriu com sua curiosidade e instinto científico apurado o funcionamento de um sistema até então não explorado em sua magnitude, o inconsciente. Numa era vitoriana, patriarcal e vertical, ajudou mulheres reprimidas e sofridas a encontrar novas formas de direcionar suas vidas e seus desejos.
No trabalho com suas histéricas “escavava” as profundezas psíquicas e o passado era a bússola a se seguir para encontrar em passagens mais primitivas possíveis a cena ou a fantasia que causava dores físicas e emocionais.
Com o avanço em seus estudos, a associação livre era o modus operandi da psicanálise. O inconsciente estava em cena, sempre margeado pelas resistências e pela transferência. Freud analisava seus pacientes através das formações do inconsciente: chistes, sonhos, atos falhos, sintomas, lembranças encobridoras, que eram por ele interpretados.
Vários pontos de sua teoria foram se aperfeiçoando no meio do caminho. Em um dos seus últimos textos, “Análise terminável e interminável”, humilde como sempre, Freud fala sobre uma rocha à qual se chega em certo momento da análise, em que o trabalho analítico encontra o seu limite: o repúdio da feminilidade, que se apresenta de formas diferentes no homem e na mulher diante do complexo de castração. A posição do sujeito mostra-se resistente à mudança nesse ponto, e Freud chega a considerar a possibilidade de haver aí um fator biológico.
Mas e então, a interpretação encontra um impasse?
A interpretação continua sendo fundamental ao longo dos avanços da psicanálise, mas de forma diferenciada. Para Lacan, pelo que entendo, o limite encontrado por Freud ganha outra dimensão: não se trata de algo que a interpretação ainda não alcançou, um limite da análise, mas de um ponto estrutural onde a falta e o impossível se apresentam. A interpretação ganha mais uma função: passa a funcionar também como ato, como corte, ainda ligada à palavra, mas levando o analisando a lidar com o não sentido, com o que a linguagem não dá conta de dizer, porque não pode ser todo dito.
Começa um caminho de maior implicação com a fala, e menos com aquilo que se supõe estar por trás dela.
Com Jorge Forbes, o limite da interpretação ganha outra consequência e passa a ser ligado à invenção e à responsabilidade. O sujeito do mundo contemporâneo tem explicação demais, explicação pra tudo em seu celular 24 horas por dia, 7 dias por semana. E o que fica na clínica? A interpretação não desaparece, mas em um momento da análise se chega ao lugar onde o sentido não faz mais caminho. O problema não é a explicação em si, e sim a possibilidade de o sujeito usá-la como justificativa para seu sofrimento, se desresponsabilizando pela sua posição: “Ah, então é por isso que eu sou assim, por causa do meu pai, por causa da forma que minha mãe me criou, por não ter tido pais”, entre outras “desculpas”.
Acreditamos que quando soubermos as “causas” encontraremos a felicidade e deixaremos de sofrer, mas isso não acontece. Descobrimos as tais “causas” e não saímos do lugar, repetimos, repetimos, repetimos. É aí que a análise pode ajudar o paciente a encontrar o ponto de basta. Não é que a interpretação tenha sido abolida, apenas que ela tem um limite e é preciso ir além. O passado nos trouxe até onde estamos, mas a responsabilidade do que fazer com ele é nossa e a escolha é aqui e agora, não lá atrás.
Chegar nesse ponto de basta é trabalhoso, mas é preciso aceitar que a verdade sobre nós nunca vai ser completa, e que não haverá uma causa final que nos dê as garantias que esperamos. E então, decidir o que fazer com a própria vida e se responsabilizar por isso.
Quando perdemos a garantia das causas ficamos com medo, inseguros, nos sentimos sozinhos e desamparados, e não damos conta muito bem do desamparo e da angústia, não é? O ponto é que a vida está aí para ser vivida, a escolha é nossa. Se do jeito que está não está bom, melhor ficar ou ir embora?
Mas muitas vezes ficamos, e por quê?
Porque queremos ter a certeza de que se sairmos daqui, do cômodo da causa, da interpretação, do sentido, vai dar tudo certo. E essas garantias não existem mais. Em um mundo completamente horizontal e repleto de opções elas se perderam, a liberdade de escolha aumentou, mas a responsabilidade também, e isso nos angustia.
Fim das garantias, limite da interpretação. Angústia e desespero? Depende do que cada um quer fazer da sua vida. Há o caminho da invenção, de abrir um espaço nesse limite da verdade para criar, arriscar, colocar a singularidade no mundo e atender ao ser desejante. E também o caminho de escolher ficar onde está.
Independentemente da escolha, é preciso se responsabilizar por ela.
Abraços e até a próxima