Os novos arruinados pelo êxito

Tem um texto de Freud que sempre me intrigou, a começar pelo título: “Os arruinados pelo êxito”, parece um contrassenso, não? O texto fala de pessoas que desejam muito algo e quando conquistam ou estão prestes a conquistar destroem todas as oportunidades. A clínica foi por muito tempo comprovando o que Freud percebeu como causa desse movimento: o sentimento inconsciente de culpa.

Mas o mundo mudou e a clínica também. Com exceção da maternidade que, como no texto anterior, muitas vezes carrega a culpa como pilar ainda muito forte, hoje muitas das questões que surgem no consultório são de outro teor: não mais a culpa por desejar, mas a dificuldade em escolher, em um mundo com tantas opções e possibilidades.

Jorge Forbes trabalha bem a questão desse novo mundo. Ele cunhou o termo “Terradois” para defini-lo. Antigamente, a vida era balizada por valores verticais, hierárquicos, bem definidos, e a culpa era a variante moral para lidar com os desejos considerados proibidos à época, com caminhos mais bem definidos e poucas possibilidades de mudança. Segundo Forbes, essas bases verticais caíram, o mundo se horizontalizou, e as opções se multiplicam a cada dia e em cada quesito da nossa vida, do nascer ao morrer, como por exemplo decidir se quer ter filho naturalmente ou fazer uma fertilização, ou decidir, em países legalizados, se quer morrer por eutanásia ou suicídio assistido.  

A variante de hoje é a angústia perante as escolhas: quanto mais liberdade para escolher mais responsabilidade e, quanto mais responsabilidade, maior a angústia.  

E o que essas mudanças têm a ver com os “arruinados pelo êxito de hoje”?

Em uma das aulas no Ipla, Jorge Forbes pontuou que muitas pessoas têm dificuldades em aceitar o sucesso, porque o sucesso nos deixa sozinhos. Isso me tocou muito e, observando a clínica, fez todo o sentido. Temos uma enorme necessidade de pertencimento. Estar no grupo é como estar em casa, é um aconchego, uma segurança, um apego ilusório àquele mundo de poucas opções e muitas garantias que já não existe mais. E então chega o êxito, o sucesso, e é preciso escolher. Aceitar o êxito é se destacar, segundo Forbes, é se separar, estar só, e isso nos angustia.

A mudança foi grande entre o mundo de Freud e o nosso, descrito por Forbes, mas sempre lutamos por mais liberdade e ela aqui está. O medo faz parte da vida, mas pode ser destruidor quando nos paralisa.  O novo é assustador, mas ao mesmo tempo encantador, pelo mundo de possibilidades que ele abre. Quando o que sempre desejamos bate à porta, é hora de fechar ou de escancará-la?

Aí é com cada um que se sentir tocado.

Abraços e até a próxima!

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